Raphael Franco, por Paula Alzugaray (2007)

Raphael Franco

Dado o imenso déficit habitacional de São Paulo, edifícios vazios e terrenos baldios são habitualmente reconhecidos como moradias e bairros em potencial. No caso do edifício residencial Village Park, no Butantã, o abandono da construção em seu estágio apenas inicial imprimiu-lhe um outro tipo de vocação, devidamente reconhecida e alimentada por Raphael Franco em seu “Projeto Apartamento”. O artista identificou na construção-fantasma uma página em branco, passível de acolher situações reais ou inventadas e acontecimentos de naturezas diversas. Embora explore possibilidades de habitação do edifício, o trabalho não se refere tanto ao direito constitucional do cidadão à moradia quanto à importância social da ativação de espaços ociosos.

A série “Habitando”, formada por registros de ocupações de caçambas de detritos, é uma espécie de ensaio para a ocupação do edifício. Em situações criadas, cada caçamba é transformada em um apartamento, cujo morador está absorto em alguma atividade cotidiana, como tomar café, ler o jornal, ou simplesmente olhar a vida passar pela janela, sentado no sofá. Devolvendo a utilidade ao objeto jogado no lixo e reinterpretando o espaço residual urbano, Raphael Franco propõe uma simulação da vida real, que irá repetir-se depois na série “Simulacro do simulacro”.

Em fotografias tiradas de um vídeo, as imagens da série “Simulacro do simulacro” mostram cenas da noite em que Raphael e um grupo de quatro amigos ocuparam a cobertura do Village Park. Carregando tapetes, colchões, cadeiras e outros utensílios domésticos catados na rua, o intuito inicial era tornar o local “habitável”, próprio para encontros em que o objetivo era simplesmente arrumar, cuidar, construir, conversar. A série é composta ainda por imagens da vida social que foi ativada no lugar: um almoço sobre mesa e bancos feitos de blocos, um churrasco de peixe, uma fogueira. Situações reais documentadas ou dramatizações da vida real, feitas especialmente para o vídeo? Talvez a maior evidência do simulacro seja a presença no local de uma televisão quebrada. Mas essa duplicidade reflete a condição expandida da imagem contemporânea, que não se detém em categorias de ficção e realidade.

A convivência do grupo no espaço levou à formação de um coletivo, batizado de Cadeira Branca. Estabeleceu-se ali uma prática colaborativa, que previa a instalação de hortas, espaços expositivos e atividades de auto-gestão. Formas de ativismo artístico bastante próximas à idéia de arte como convivência, levada a cabo por Gordon Matta-Clark em sua obra-restaurante “Food”. Ter o detrito e o espaço urbano residual como matérias de trabalho são outras aproximações de Raphael Franco com o artista novaiorquino ativo na década de 1970. Mas, como em geral ocorre com as ocupações, o Cadeira Branca foi despejado do Village Park, que hoje chama-se Verdes da Universidade e sua vocação de espaço público não chegou a desabrochar. Mesmo assim, o edifício permanece como tema e o trabalho continua em processo.

Paula Alzugaray

Março de 2007

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