PRAIA DA VALA, 2017 (Residência Saracura)

Nós, seres urbanos, vivemos a cidade, nosso hábitat por excelência, como se tivesse vida própria. Suas transformações, mesmo que projetadas e realizadas por pessoas que estão presentes nas obras públicas, se apresentam a nós como se fossem necessidades ‘naturais’ e não fruto das mais diversas disputas de poder. O ambiente urbano, porém, é o espaço vital onde ocorrem nossas atividades cotidianas – produtivas ou não –, mas cujo desenvolvimento é pautado pela lógica da circulação de mercadorias e pela facilitação do deslocamento dos automóveis. Assim, esse espaço onde se desenrola a vida da maioria absoluta da população mundial, é um espaço constrito, onde nossos corpos e afetos se veem ameaçados constantemente pelas máquinas em alta velocidade que cruzam nossos caminhos. A convivência com a alteridade, outra característica marcante desse ambiente, também gera uma série de violências, ao invés de ter um caráter libertador e ampliador de nossas experiências como um convívio plural deveria supor.

As obras que modificam esse ambiente, especialmente em nossas cidades ‘terceiro-mundistas’, transformam constantemente a paisagem de nossa experiência e impõem aos seus habitantes uma série de choques que nos deslocam no espaço e no tempo de nossos afetos. A região portuária do Rio de Janeiro e suas transformações levadas a cabo pelo consórcio Porto Maravilha é emblemática dessas mudanças no tecido social e físico de nossas cidades que expropriam a população das experiências comunitárias que tecem a teia de relações urbanas. A região também comporta uma enorme carga histórica, ligada ao passado escravocrata do país e do continente. História essa inclusive que foi sucessivamente apagada pelas diversas obras na região desde o século 19 e que foi literalmente aterrada pelo poder público em uma ação de efetivo apagamento dessa memória sombria da ‘nação’ brasileira – uma maneira de produzir um esquecimento de nossas contradições fundadoras que ao mesmo tempo mantém as desigualdades em perpétuo funcionamento.

Raphael Franco é um artista que busca os detalhes escondidos das grandes metrópoles e realiza um sistemático trabalho de mapeamento e registro das suas constantes transformações. Seus registros das ‘cirurgias urbanas’ que estão por todos os lados das cidades contemporâneas, são uma maneira de destacar o caráter humano e ao mesmo tempo maquinal dessas transformações que nos deixam desnorteados em meio aos ambientes nos quais crescemos e onde convivemos. Em suas fotomontagens, por sua vez, o artista desconstrói a imagem da cidade para oferecer uma outra paisagem ao público, nele reconstruindo a imagem urbana aparentemente estática que carregamos conosco. Ou seja, concorre para desestabilizar as seguranças que esse ambiente cria em seus habitantes e que sabemos não serem tão seguras.

Ao se aproximar da região do Valongo, o artista não pode deixar de olhar para esse apagamento sistemático da memória contida ali. A praia do Valongo, o mar que batia na porta do Saracura e o cais que depois de receber centenas de milhares de africanos escravizados foi reformado para receber a futura imperatriz brasileira e que acabou sendo soterrado nas reformas de Pereira Passos (para depois ser descoberto pelo ‘porto maravilha’), são por ele perseguidas e reveladas, mesmo que apenas simbolicamente. A montagem que ele apresenta no Saracura parte disso tudo e busca tornar nosso olhar mais sensível para as transformações impostas à população pelo poder público – e cabe sempre lembrar dos 5%, 10% dos Cunhas, Cabrais e Pezões que tornam o processo ainda mais violento e imoral. Uma cidade que se transforma radicalmente a cada ciclo histórico e que soterra no processo a memória daqueles que a constroem e a utilizam diariamente. Uma cidade que a cada ciclo histórico se torna mais desigual para seus habitantes e teima em perseguir uma imagem espetacular para vender para os turistas. Raphael nos apresenta aqui um pequeno retrato paisagístico desse presente congelado e que se liga também ao passado nem tão remoto quando os ‘pretos novos’ aguardavam nos armazéns dos traficantes de gente para serem vendidos ou então enterrados nas valas comuns do Valongo.

André Leal

Maio de 2017

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