As vísceras da cidade, por André Leal (2012)

Raphael Franco: as vísceras da cidade

 

A produção de Raphael Franco pode ser entendida como uma verdadeira dissecação da cidade contemporânea. A série fotográfica Cirurgia urbana, que o artista realizou entre 2008 e 2011, deixa clara sua intenção de literalmente expor as entranhas escondidas da cidade que aparecem quando obras de infra-estrutura urbana são realizadas. Se Gordon Matta-Clark realizava suas intervenções em edifícios abandonados pelo capital na década de 1970 para depois expor o registro ou então se apropriava de locais que estavam no limite entre a produção do espaço capitalista e seu consequente abandono, Raphael Franco registra espaços em transformação que o capital considera como valiosos nas grandes cidades contemporâneas. O interesse por espaços abandonados pelo desenvolvimento urbano também são de extrema importância para o artista e foi partindo desse interesse que seu olhar se dirigiu para as transformações da cidade. Um artista que lhe serve de referência é o paulistano Rubens Mano cuja influência é notável em fotos da série Cirurgia urbana, especialmente se tivermos em mente por exemplo sua fotografia Casa Verde (1997) que registra uma casa em processo de demolição no bairro de mesmo nome na cidade de São Paulo. O procedimento artístico de Mano de um modo geral também pode ser aproximado do repertório dos artistas incluídos nessa seção, sempre tentando levando o espaço urbano ao ambiente expositivo – seja por meio de sua representação e simulação da experiência nesse espaço como em Contemplação suspensa (2008) ou pela perturbação da galeria que Mano abre ao público presente em Vazadores (2002), por exemplo.

A fotografia é o principal meio do trabalho de Raphael e ele se utiliza dela de diferentes maneiras, seja apresentando o registro fotográfico em si, manipulando fotos ou então realizando fotomontagens que sempre têm em comum a representação e a desnaturalização dos espaços nelas registrados. Vale destacar sua série Vísceras (2011), um desdobramento da Cirurgia urbana que também expõe as entranhas da cidade durante grandes obras, mas cujo produto são impressões manipuladas pelo artista com aquarela sobre o papel fotográfico. Esses usos diversos que ele dá à fotografia evidenciam seu interesse pelo próprio meio fotográfico e as possibilidades de manipulação – e coisificação – da realidade que ele possui. Seja em um registro dito neutro – a fotografia em si –, ou por meio das montagens e manipulações produzidas pelo artista, a imagem torna-se mais próxima e palpável. Dessa forma, Raphael realiza seus procedimentos de desnaturalização da ideologia que regem os processos sociais por meio da desnaturalização, e também desrealização, das fotografias que utiliza em seu trabalho. Ao mesmo tempo em que expõe a lógica que rege a construção da cidade, o artista também expõe a arbitrariedade do meio utilizado para o registro dessa mesma paisagem.

Foi em um edifício abandonado que Raphael realizou seu primeiro projeto de vulto em conjunto com o coletivo artístico Cadeira Branca. Projeto Apartamento (2006) foi uma tentativa de dar um uso a um prédio de apartamentos cuja construção foi interrompida pela falência da construtora Encol em meados da década de 1990. A estrutura de concreto armado ficou abandonada por mais de dez anos em meio a um bairro residencial da zona oeste paulistana servindo a churrascos ocasionais de estudantes da vizinha Universidade de São Paulo (USP) além de abrigo esporádico para moradores sem teto da região. A ideia do artista, depois encampada pelo coletivo, foi a de mobiliar um andar dessa estrutura com móveis encontrados em caçambas e simular um apartamento com todos seus ambientes. Aos poucos esse apartamento foi sendo configurado como tal e em pouco tempo passou a ser usado pelos artistas e por outros frequentadores do edifício. A ‘sala de jantar’ e ‘de televisão’, o ‘quarto’, a ‘cozinha’ e até a ‘cobertura-jardim’ – na verdade restos das formas utilizadas na estrutura de concreto armado que foram abandonadas no último pavimento e criaram um substrato para que plantas crescessem – foram usados como espaço de discussões e descanso até que os verdadeiros donos do edifício conseguiram organizar-se para finalizar a construção, interrompendo a experiência estética que havia começado cinco meses antes. Hoje em dia famílias fazem seus jantares e assistem à televisão sem nem imaginarem que pouco tempo antes aquele local havia servido a propósitos tão diferentes na essência, mas ao mesmo tempo tão semelhantes em sua forma. A ideia contida nesse trabalho era justamente a de revelar a função social à qual o prédio deveria servir e induzir a vizinhança a utilizá-lo de uma maneira comunitária e como espaço de lazer e reflexão para todos. O projeto, que acabou sendo interrompido e portanto não pode ser realizado em sua totalidade, previa diversos usos para a estrutura como a criação de outros ambientes como os que chegaram a ser implementados. Além disso estavam previstas diversas ações de aproveitamento dos recursos energéticos ali disponíveis e dos elementos orgânicos que permitiram que plantas crescessem na cobertura e também nas lajes dos andares, que já se encontravam em processo de colonização por musgos e outras pequenas plantas. A ação – possibilitada e interrompida pela dinâmica da cidade capitalista – acabou ficando apenas como registro ao ser apresentada pelo artista e pelo coletivo em algumas ocasiões, mas o público não pode ter contato direto com aquele ambiente, algo que tornaria a ação mais interessante e lhe daria outras implicações. De todo modo a recepção parece sempre afetar o observador, que passa a enxergar de maneira diferente as estruturas abandonadas existentes pela cidade e chega até a pensar em adentrar esses espaços carregados de simbologias e potencialidades.

Nesse trabalho podemos ver dois elementos que marcariam e caracterizariam definitivamente o trabalho de Raphael. Um deles é sua fascinação por caçambas e pelos dejetos da construção de uma grande cidade, o que o levaria a vê-las como espaços que poderiam ser ocupados com fins diferentes do que o mero descarte de resíduos. Dessa fascinação é que surge a série Habitando, realizada entre 2006 e 2008. Nessa série o artista fez diferentes ações caseiras dentro de uma caçamba, como ler um jornal, tomar um café ou simplesmente sentar em um sofá que estava ali depositado ou até mesmo diretamente sobre o entulho. A série compreende fotografias tiradas no momento da ação, não podendo ser consideradas como uma performance propriamente, já que não havia o interesse do artista em provocar o passante, senão o de registrar a cena inusitada para depois expô-la e provocar o observador de maneira semelhante à que ocorre no Projeto Apartamento. É interessante também frisar que uma das primeiras fotografias que o artista incluiu na série foi realizada durante o Projeto Apartamento, Village Park (2006) e é a única que não é uma ocupação de caçamba. Essas imagens inusitadas fazem com que o observador novamente reconfigure sua visão em relação a esses objetos que fazem parte da ‘natureza’ da cidade e que simbolizam em primeira instância o descarte de materiais durante seu processo de transformação.

A outra série que pode ser vista como fruto do Projeto Apartamento é Introduzindo novas espécies, realizada entre 2010 e 2011 na cidade de Londres, onde o artista reside atualmente. Dessa série, porém há outro precedente que a relaciona também com Habitando, que foi uma árvore que Raphael plantou dentro de uma caçamba cheia de terra em 2007, Plantando árvore em caçambaIntroduzindo novas espécies, no entanto, une seu interesse tanto pela vegetação que brota em meio ao concreto de uma grande cidade, como ocorria no edifício abandonado do Butantã, quanto pelos espaços abandonados pelo capital em meio às cidades contemporâneas que também caracterizava o edifício do Projeto Apartamento. O primeiro passo dessa série foi, inclusive, um levantamento das espécies de plantas que já existiam em um galpão abandonado da cidade de Londres após algumas visitas nas quais o artista apenas explorou aquele espaço. Depois de elencar algumas plantas, buscando seu nome científico e adicionando a eles o epíteto específico matus urbanus, Raphael passou a criar canteiros em conjunto com o grafiteiro Milo Tchais. As formas das plantas colocadas nas jardineiras que criaram se confundem com os traços orgânicos do grafite que foi realizado na ocasião. É preciso destacar ainda que a região na qual está esse galpão encontra-se no eixo no qual serão realizados os Jogos Olímpicos de 2012 e que está passando por intensa transformação. A dinâmica do capital nessa área está portanto bastante evidente e as obras são lideradas pelo poder público, na construção do Parque Olímpico, mas seguidas de perto pelo capital imobiliário, pressionando a população local – de imigrantes e ingleses com menor poder aquisitivo – a venderem seus imóveis. As plantas também forçam uma aproximação entre a natureza em si a essa ‘segunda natureza’ que rege a construção da cidade e é desnaturalizada pela intervenção do artista.

Do mesmo modo que Introduzindo novas espécies pressupõe um olhar atento e quase que microscópico para cantos desses espaços abandonados, uma das séries mais recentes de Raphael, Arquitetura de canos e cabos (2011), também demanda esse olhar dirigido para os detalhes da cidade que normalmente nos passam despercebidos. Dessa forma o artista, do mesmo modo que Daniel Nogueira – é significativo o fato de Raphael tratar também dos cabos que marcam a paisagem urbana –, ilumina a cidade com seu olhar de ‘ser urbano’, fazendo com que o público também passe a olhar para esses locais com novos olhos. As fotografias resultantes dessa série acabam mostrando a poesia que podem ter as formas esquecidas da infraestrutura urbana quando atentamos para os detalhes. Novamente, elas revelam o olhar distraído e naturalizado pelo homem contemporâneo, quando ele se depara com uma montagem na qual visualiza um beco emoldurado por cabos e canos, por exemplo.

Há no percurso de Raphael um momento que poderíamos considerar de transição que se deu no ano de 2009 quando o artista passou a se interessar pelos instrumentos utilizados nas reformas urbanas e nos operários que as executam. Esse interesse também deriva da série Cirurgia urbana em um primeiro momento, quando passou a registrar e elencar os papéis desempenhados por esses operários nos canteiros de obra. Desse registro surgiu a série Funções sociais dentro da cirurgia urbana (2008-2009) cujas fotografias trazem o nome da função que o trabalhador retratado está desempenhando no canteiro. Esses nomes, porém, são na maioria das vezes figurativos e não reais, já que o Guerreiro (2009) ou o Fotógrafo (2009), nada mais são do que um operário carregando pontaletes ou então mirando em uma estação total topográfica, respectivamente. Assim, novamente Raphael desnaturaliza a produção da cidade, mas por outro meio, expondo diretamente o trabalho necessário para sua realização e as relações de dominação existentes no canteiro de obras. A fantasmagoria que esconde o trabalho existente por trás das mercadorias – nesse caso o ambiente urbano, que sob o capitalismo também torna-se mercadoria – é revelada de maneira direta pelo artista. Ele assim, enfrenta uma teoria corrente na atualidade de enxergar a cidade como um ‘organismo vivo’ independente das forças que regem sua produção espacial, sempre marcadas pelas contradições inerentes aos fluxos de capital.

O momento de transição apontado acima coincide com a mudança do artista para Londres que mudou sua relação com o ambiente urbano e portanto teve impacto também em sua produção. Por mais que uma cidade como Londres seja planejada de um modo mais coerente com o bem-estar de seus habitantes, ficou claro para o artista que há toda uma mitologia em torno da ideia do estado de bem-estar social, ainda por cima pelo fato de estar vivendo e sentindo por si mesmo os efeitos da crise financeira que assola a Europa desde 2008. De qualquer forma, a dinâmica da construção da cidade em Londres é bastante diferente da de São Paulo. Por mais que a metrópole paulistana tenha um volume enorme de obras em andamento e áreas inteiras são completamente transformadas em muito pouco tempo, a tecnologia e as marcas disso pela cidade são muito menores do que em Londres. Lá o planejamento se dá em uma escala de décadas e ele é seguido à risca pelas autoridades públicas, dando um ar de eficiência e racionalidade que parecem ser o tema principal que interessa ao artista. A construção da cidade, no entanto, segue um padrão de otimização da circulação do capital e Raphael nos mostra que por trás desse padrão existem pessoas que seguem ordens e se organizam segundo rígidas estruturas hierárquicas.

Do mesmo modo, seu interesse pelo que ele chamou de ‘instrumentos’, as máquinas do canteiro de obras, também deu origem a diversas séries fotográficas. O primeiro momento também foi o do simples registro dessas máquinas em meio à série Cirurgia urbana, dando origem à série Instrumentos (2008-2009). Posteriormente, partindo da ideia de simulação desses mecanismos de construção da cidade, Raphael realizou diversas fotografias com máquinas de brinquedo em cenários inusitados, como em cachoeiras de Pirenópolis, em parques londrinos ou no quintal de sua casa. Mais uma vez, esse procedimento desestabiliza a compreensão usual que temos de tais aparatos, pois quebra com a aura de eficiência produtiva que eles carregam, já que aqui elas se tornam máquinas ou instrumentos ilusórios e lúdicos e dessa forma também perdem sua função ‘produtiva’ e são transformados simbolicamente em meros brinquedos. No processo de recepção dessas imagens pelo público as máquinas ‘de verdade’ também acabam sendo contaminadas por essa carga simbólica. Ecoam aqui também as palavras de Burden sobre o papel de naturalização dos processos sociais que têm os brinquedos na educação das crianças. Ao serem apresentadas isoladas em meio à natureza simulando as funções para as quais foram produzidas, essas máquinas acabam sendo ainda mais mistificadas. Isso ocorre, porém, no mesmo momento em que são desmistificadas pela aproximação que o artista realiza delas com o observador. O título da série, Atividade, reforça ainda mais essa confusão que o artista pretende provocar, já que destaca a função de tais máquinas, mas a atividade aqui é simulada e no fim não tem propósito prático algum dentro dos circuitos da reprodução do capital.

Na série Artefatos (2008), por sua vez, Raphael também interfere com a mistificação que há por trás do trabalho em grandes obras urbanas ao colocar esses mesmos tratores de brinquedo semi-encobertos por areia, abandonados no que poderia ser um cenário pós-apocalíptico. Ao mesmo tempo, as posições nas quais estão os brinquedos e as relações que estabelecem entre si não dão margem à ideia de abandono propriamente, impondo uma noção de trabalho à ação. Assim, não é o simulacro de um ferro-velho o que vemos nessas imagens e a própria inutilidade desses objetos é o que chama a atenção em um primeiro momento. Outras duas séries realizadas pelo artista parecem ir nesse mesmo sentido, Alimentando (2008-2009) e Experimentações fotográficas (2006-2009). As duas também podem ser relacionadas à série Vísceras da Cirurgia urbana, já que expõem as entranhas da cidade como vísceras humanas ou animais. Em Alimentando  há a simulação disso com suas máquinas de brinquedo e pedaços de carne, como se as máquinas empreendessem um embate com vísceras verdadeiras, ora ganhando, ora perdendo esse embate, como ocorre em Indigestão (2009). No caso das Experimentações fotográficas o artista força a associação entre carne ou vísceras e o espaço urbano por meio de manipulações em fotografias como realizadas na Cirurgia urbana. Seja por meio de fotomontagens ou de manipulações feitas diretamente sobre o papel fotográfico com tinta ou caneta esferográfica, Raphael busca criar a mesma estranheza que nas simulações de Alimentando, só que aqui são as máquinas reais – por vezes também quase que transformadas completamente em desenhos – que entram em embate com as vísceras da cidade, causando um estranhamento cujo pano de fundo não é simulado, mas sim a própria cidade. Do mesmo modo a carne, ou vísceras tomando edifícios remetem a esse embate entre o orgânico e o mecânico e sugerem ainda uma relação bastante visceral entre o próprio artista, sua obra e o ambiente urbano construído que o circunda. Novamente ele intervém nas fotografias quebrando com a noção de realidade nas imagens para transmitir essas sensações. Da mesma maneira que Adriana Varejão transforma a arquitetura e seus elementos em algo surreal quando expõe suas ‘vísceras’, Raphael faz isso na escala urbana. O trabalho de Varejão, porém, provoca muito mais repulsa no observador, já que é na escala real do espaço expositivo que ela constrói suas obras colocando o público à frente de suas próprias vísceras que escorrem da parede como em sua Azulejaria em carne viva (1999).

Outro trabalho que merece destaque foi realizado dentro do programa de residência artística UNIDEE na Itália. Durante os quatro meses de 2011 nos quais residiu em Biella o artista realizou diversos projetos utilizando-se da bicicleta como meio de transporte para conhecer e mapear a região. Esse processo culminou em seu projeto final, Landscape absortion system (2011), no qual o artista acoplou uma carreta com uma câmera filmadora em sua bicicleta. A câmera está apontada para um espelho e portanto registra as costas do ciclista e os lugares por onde ele já passou e pelos quais ainda irá passar. O cenário que a câmera capta são apenas fragmentos das fachadas de edifícios e o recorte do céu definido por eles. Ao mesmo tempo é possível ver o fundo, aquilo que está atrás do espelho, ou seja, a cidade ‘real’, o que acaba perturbando a apreensão de ambas as imagens. O foco está no espelho, mas o fundo intervém nessa leitura e não sabemos mais para onde olhar, ainda mais pelo fato de que ambos fazem parte de um mesmo movimento, mas cujas imagens estão literalmente espelhadas. O fato de o espelho ser redondo perturba ainda mais essa apreensão. O nome também traz uma ideia de apropriação desse cenário que o artista parece pretender, como que se ao registrar essas imagens ele tomasse posse delas e do ambiente urbano, novamente trazendo à tona a relação visceral que ele tem com esse espaço. Outra vez a performance que o artista realiza não é feita para quem passa por ali, senão como forma de registro desse ambiente; a ação é realizada para produzir o vídeo que será mostrado ao público posteriormente. As imagens que temos no final do trajeto é um panorama visual e sonoro da região, mas que é perturbado pelo caráter surreal das imagens e pela música colocada na edição. O vídeo nos apresenta lampejos da paisagem urbana sem nunca revelá-la por completo e a distorção causada pelo espelho convexo também acentua a atmosfera de irrealidade presente nas imagens, agindo para desnaturalizar tanto o registro das imagens quanto o ambiente registrado nelas.

Outra pesquisa que o artista começou recentemente por meio de passeios de bicicleta é o Mapping private public spaces (2011-2012), que lembra os Fake Estates de Gordon Matta-Clark. Nesse trabalho, Matta-Clark comprou diversos terrenos inutilizáveis, sobras de loteamentos, em leilões realizados pela prefeitura de Nova Iorque, os registrou e os colocou novamente no mercado, demonstrando a arbitrariedade da propriedade fundiária urbana e ao mesmo tempo satirizando o processo de construção do espaço urbano. Raphael também tem em mente a arbitrariedade da produção do espaço urbano fruto da especulação imobiliária mas nesse trabalho ele elenca os espaços que as corporações acabam cedendo ao uso público na cidade de Londres. Motivado pelos movimentos anti-globalização surgidos em 2011, primeiro em Nova Iorque e depois por diversas cidades do mundo, ele voltou seu olhar a essa forma bastante temerária de disponibilizar áreas públicas para a população. Essa tensão ficou evidente por exemplo pelo fato do Zuccotti Park, ocupado pelos manifestantes em Nova Iorque, ser de propriedade da incorporadora multinacional Brookfield Properties, e é ela, e não a prefeitura, quem tem o poder de expulsá-los por meio de reintegração de posse. Da mesma forma, a City londrina não tem espaços públicos propriamente, todos são de alguma corporação financeira que opera na região. Assim, os manifestantes acabaram sendo abrigados em frente à Catedral de Saint Paul, em uma praça cedida pela igreja. Daí surgiu sua ideia de revelar ao público a contradição que existe, já no próprio nome da lei da prefeitura novaiorquina – ‘espaços públicos de propriedade privada’ – e que garantem regalias ao construtor tais como o aumento do potencial construtivo do terreno entre outras contrapartidas dadas pelo poder público. A contradição maior, porém, está no fato de que esses espaços estão constantemente sob vigilância privada e são os agentes privados que em última instância têm o controle sobre a circulação ali. Esse trabalho de Raphael também tem a característica de ser uma ação que ele realiza de bicicleta com o apoio de suportes tecnológicos como um aplicativo em seu iPhone que registra sua rota e no qual ele marca na hora esses espaços que vai encontrando no trajeto. Outro exemplo recente do uso que o artista faz desses aparatos tecnológicos é Cyclevice (2012), obra cujo produto é um mapa com a trajetória que o artista percorreu de bicicleta durante certo tempo sempre refazendo o mesmo trajeto. As linhas vermelhas que se sobrepõem são o resultado do trajeto registrado pelo GPS de seu telefone que é transmitido para seu computador. Esse trabalho traz algo do que Daniel Nogueira diz em relação ao seu trânsito entre diferentes escalas. Apesar do trabalho de Raphael já se dar na escala da cidade, ele sempre é seu registro e representação, ou seja, está sempre na escala da fotografia, por maior que uma fotomontagem possa ser. Em Cyclevice, mesmo que seu resultado não tenha dimensões definidas a princípio, e por isso sua escala é arbitrária, o desenho se dá na escala urbana em si.

É interessante no trabalho de Raphael a dimensão do trabalho colaborativo. Desde o Projeto Apartamento, até os trabalhos que realizou na Itália, a colaboração com outros artistas é muito importante, e no caso de Mapping private public spaces, não há uma colaboração propriamente, mas sim uma preocupação que surge de uma ideia de coletivo e de público que muitas vezes são utilizadas de forma equivocada pelo senso comum e que sempre merecem ser revistas de tempos em tempos. Sua mudança para a cidade de Londres também traz a ideia de uma preocupação mais coletiva, no sentido de que os espaços públicos lá têm uma qualidade muito maior do que os de São Paulo, mesmo podendo ser alvo das críticas já apontadas. Mas de qualquer modo, parece ser a ideia de eficiência e racionalidade que o planejamento nessa cidade transmite que mais interessam a Raphael. Ou melhor dizendo, tal racionalidade e eficiência é o alvo preferido das críticas à modernidade, e o artista entra nessa discussão registrando a força das transformações em curso na cidade que este ano receberá os Jogos Olímpicos e cujo eixo norte-sul ao leste do centro está sendo profundamente modificado com um planejamento que foi elaborado há mais de dez anos. Raphael assiste a tudo isso com um ar de incredulidade e não quer que nada fique sem ser registrado para que no futuro possamos nos lembrar como se deu a construção da cidade que um dia nossos netos irão chamar de Londres. Mas, novamente, o próprio registro dessas transformações concorrem para que não as vejamos como naturais, muito pelo contrário, estão sujeitas à contingência como qualquer produto da ação humana.

 

Experimento Multigeográfico: Raphael Franco e Daniel Nogueira

 

Um trabalho que merece ser apresentado por fim é Experimento multigeográfico (2012), realizado em conjunto com Daniel Nogueira e no qual também podemos ver uma tentativa de abarcar o território da cidade na escala real e de definir os contornos de uma experiência urbana. O percurso desenhado no mapa foi registrado em tempo real por um aplicativo em seus celulares que também registra os dados expostos como altitude, tempo e velocidade. Os contornos da experiência urbana que os artistas buscam definir se revela como literal já que, ao delimitarem os anéis de circulação que envolvem as áreas mais centrais das cidades de Londres e de São Paulo, eles acabam reforçando a noção de um centro com infraestrutura consolidada na qual circulam em contraposição com uma periferia menos favorecida – por mais que as duas cidades tenham dinâmicas espaciais muito diferentes e o subúrbio londrino não possa ser considerado exatamente pobre. Inclusive aí está um dos interesses que aparece quando é estabelecida essa comparação entre as cidades. De qualquer modo a relação que ambos têm com o espaço urbano os leva à essa tentativa de abarcar em sua totalidade o território por onde circulam. Essa tarefa está inevitavelmente fadada a fracassar como o mapa em escala real descrito por Borges que encobriu todo o império e que acabou abandonado à ruína pelas gerações sucedâneas. No processo de construção dessa cartografia desmesurada, porém, muito foi revelado sobre as bases nas quais se estabeleceram os paradigmas científicos que nos trouxeram ao atual estágio de desenvolvimento humano, justamente revelando sua arbitrariedade e contingência inescapáveis. Da mesma maneira, o mapa de Raphael e Daniel nos mostra como a racionalidade instrumental gerou uma forma urbana na qual o homem perdeu seu lugar e cuja escala é quase impossível de mensurarmos.

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