Andar de bicicleta é perigoso? (por Robson Combat)

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ANDAR DE BICICLETA É PERIGOSO? (por Robson Combat)

Link original: http://www.avidadebicicleta.com/2014/03/andar-de-bicicleta-e-perigoso.html?spref=fb

Meu filho de 6 anos está numa fase engraçada: quando vê uma coisa que não conhece, causando certo estranhamento, me diz “-pai, com isso eu não posso brincar, porque é perigoso, não é?”

Como é notório aqui, eu uso a bicicleta como meu principal meio de transporte. No início eu era “apenas” uma pessoa que usava a bike, mas com o tempo fui me envolvendo neste mundo e hoje sou um PROMOTOR da bicicleta como uma coisa que pode mudar a vida das pessoas e das cidades.

Isso me faz carregar uma nova responsabilidade: a de garantir que as coisas que falo são fundamentadas. Uma necessidade e uma preocupação.

Para garantir isso eu preciso pesquisar muito, cada artigo que escrevo aqui vem carregado de pesquisa e pesquisa, muito por isso dá tanto trabalho produzi-los.

Há alguns dias fomos contactados pela repórter de um jornal querendo “fazer uma matéria sobre o aumento de acidentes com ciclistas no trânsito, buscando personagens que tenham sofrido acidentes”. Esse contato gerou inúmeras pesquisas, tão relevantes que faço questão de dividir com vocês aqui.

Mas isso aconteceu há algum tempo, o que de fato reforçou esta necessidade foi uma “campanha” que propõe chamar atenção sobre como os motoristas “caçam” os ciclistas, exibindo suas “cabeças” como prêmio. Mas a temática é a mesma: “como bicicleta é perigoso!”.

Antes de tudo, tenho quase certeza de que a intenção – ingênua deles – é “nobre”, chamar a atenção sobre como os ciclistas são desrespeitados e são vítimas no trânsito. Porém, os números mostram exatamente o contrário, por mais que o nosso “senso comum” queira acreditar no contrário!
Você deve estar achando estranho, não é? Então vamos lá:

As primeiras pesquisas mostram que o número de acidentes com ciclistas no trânsito tem DIMINUÍDO, em números absolutos e relativos. Quando encontramos estes números – desconfiados – vamos mergulhando mais para saber se isso é verdade. Aí encontramos dados mais elucidativos ainda: durante a história, em cidades que tiveram aumento do número de ciclistas nas ruas, o número de acidentes de trânsito envolvendo ciclistas diminuiu!
Os dados mostram que a quantidade de acidentes de trânsito envolvendo pessoas em bicicletas é inversamente proporcional à quantidade de ciclistas nas ruas. Em outras palavras: quanto mais pessoas andando de bicicleta, mais seguro é andar de bicicleta.
Por que será, ora bolas?
Isso acontece – entre muitas coisas – principalmente por conta do aumento da visibilidade do ciclista nas ruas, pelo natural aumento da “ocupação das ruas” pelos ciclistas.

Vamos ver os dados para entender melhor (mas já previno, o artigo está grande, porém acho que está bem maneiro, vale à pena ler!):

Total de viagens de bicicleta POR DIA no Rio de Janeiro (capital):
1994: 77mil
2004: 217mil
2012: 420mil
Um aumento de 445% em 18 anos.

Total de acidentes com morte POR ANO no Rio de Janeiro (capital):
1994: N/A
2000: 1
2001: 3
2002: 6
2003: 9
2004: 21
2005: 21
2006: 33
2007: 20
2012: 20

Cruzando e normalizando os dados (transformando em viagens/acidentes/ano) vejamos isso num gráfico:

Clique para ver ampliado

Observe que nem é possível PLOTAR ambas as informações no mesmo gráfico, eu criei este formato para que isso ficasse claro.

Clique para ver ampliado

Observe aqui quem são as principais vítimas do trânsito: as pessoas a pé (pedestres)! E não se faz nenhum alarde sobre isso, devemos nos perguntar por quê?
Devemos também nos perguntar quem mata estes pedestres?

Perceba, cuidado ao analisar os dados: podemos olhar para eles e pensar: “nossa, como é perigoso andar a pé pelas cidades!”.
Mas observe que praticamente TODOS os acidentes fatais estão envolvendo veículos motorizados!!!!
Então a leitura correta deveria ser: “nossa, como permitimos que os veículos motorizados matem tantas pessoas e continuamos não fazendo nada?”.

Mais: percentuais sobre modais e acidentes os envolvendo:

Clique para ver ampliado

Observe aqui que a bicicleta é o único modal em que o percentual de acidentes é menor que o percentual de utilização.

Outro gráfico bastante elucidativo e esclarecedor:

Clique para ver ampliado

Em países com alto nível de uso bicicletas como meio de transporte a tendência do aumento de segurança é clara. Ou seja, quanto mais bicicletas nas ruas, mais seguro é andar de bicicleta.

Complementando com dados sobre fatalidades no trânsito, envolvendo vários modais:

Clique para ver ampliado

O aumento do uso de bicicleta no trânsito diminui não apenas a fatalidade dos acidentes envolvendo ciclistas, mas outros veículos também. Ou seja, trocando o uso de veículos motorizados por bicicletas, todos ganham.

Mais um que mostra que diminuindo o número de motorizados, diminui-se a fatalidade nos acidentes de trânsito:

Clique para ver ampliado

Isso nos EUA, para algum “espertinho” que queira dizer, “Ah, mas aqui não é Europa”.

Para mim os melhores dados e o melhor gráfico de todos:
Quantidade de uso de bicicletas X índice de fatalidade em acidentes com ciclistas

Clique para ver ampliado

Com esta visão, fica MUITO claro tudo que eu disse acima: quanto maior o uso de bicicletas e menor o uso de veículos motorizados, menor a taxa de mortalidade em acidentes envolvendo ciclistas.

Mas o mais interessante de tudo: logo abaixo, o percentual de pessoas que usam capacete em cada cidade. Observem que as cidades que tem menos fatalidade são as que os ciclistas MENOS usam capacete!

[…]
Sobre o uso do capacete, vale uma capítulo à parte

Eu estou aqui querendo mostrar – através de números e experiências – que andar de bicicleta não é perigoso, contrariando o “senso comum”.
Uma das atitudes que corroboram com a imagem de que andar de bicicleta é perigoso é a força que se dá à necessidade de uso do capacete para “aumentar” a segurança do ciclista no trânsito.

Em primeiro lugar, os dados deste gráfico acima derrubam TOTALMENTE esta teoria.

Em segundo lugar, capacete é usado para SITUAÇÕES E AMBIENTES POTENCIALMENTE PERIGOSOS, como por exemplo:
– competições de motocicleta (e até de bicicleta)
– motociclistas em qualquer ambiente (fragilidade + velocidade)
– competições de carros (hã, competições de carros? como assim, as pessoas andam de carro COM capacete?)

Então, quando se quer dizer que “tem que usar capacete para andar de bicicleta no trânsito” (em que se anda a uma velocidade média de 15Km/h), está se querendo dizer – subliminarmente – que aquilo é perigoso.
Mas não é estranho que andar de carro seja tão perigoso a ponto de os pilotos os usarem, mas não a ponto de os motoristas precisarem usar no trânsito?

Não é estranho nada!

Existem estudos que mostram que o índice de fatalidade com motoristas diminui absurdamente se eles usassem capacete, mas……… já pensou o que seria de nossa sociedade se se descobrisse que andar de carro é tão perigoso que se precisa usar capacete?
Socorro!
A venda de carros, ia cair vertiginosamente!
Então não interessa divulgar esta informação! Vamos ficar quietinhos, né?

Eu imagino as pessoas pensando “nossa, que maluquice!”. Eu também acho!

E sabe qual é rebordosa – em nós ciclistas urbanos – desta “crença” de que capacete dá “segurança” ao ciclista? Quem opta por não usar capacete tem de ouvir diariamente frases do tipo:

  • “Viu só, o cara é o maior irresponsável, andando na rua de bicicleta, e ainda por cima SEM capacete. No fundo se um cara destes sofre um acidente não tem como reclamar, não preza pela própria segurança, porque eu vou ter que prezar pela segurança dele”. Pois é, não é piada sem graça, eu já ouvi isso algumas vezes. 😦
  • “eu vejo esse cara passar por aqui sempre, ele é um ciclista consciente, usa capacete, anda sempre pelo cantinho da rua, não atrapalha nenhum carro”
  • “cara, sai da rua, vai pro parque, eu tô aqui trabalhando e você passeando, nem equipamento de segurança usa”

Um adendo ao artigo: depois de publicar, algumas pessoas me questionaram sobre minhas considerações a respeito do uso do capacete.
Deixe-me corrigir uma impressão que parece ter passado aqui: não estou dizendo que usar capacete não é seguro, nem estou fazendo apologia ao seu não-uso. As considerações acerca do capacete aqui são para chamar atenção sobre a “cultura do medo” e sobre a ideia de que “só quem usa capacete é que se preocupa com a segurança”.
Isso é que está sendo questionada aqui, não o seu uso, ok?
Eu mesmo uso capacetes em alguns ocasiões, em outras não. Uso capacete em meu filho.

Então repito: o ponto não é o questionamento sobre a importância dele. Acho que cada um deve usar ou não, de acordo com suas opções.

[…]

Então , depois de tudo isso, imagino que alguém pense: “Bah, mas você está falando só de números, quero ver ali, no dia a dia se não é perigoso, eu não encaro!”.

Vou então citar uma coisa que vivi há alguns anos:
Eu estava viajando e conheci uma moça de Israel. Como todo brasileiro que sabe – através “das notícias” – que “Israel é um lugar que tem homem bomba, tiroteios, guerra, atentados etc.” indaguei: “-Nossa, como é viver num lugar tão perigoso?”.

Ela me olhou muito assustada e disse: “-Que pergunta estranha, você não vive no Rio de Janeiro”?

Eu desci então de minha soberba e percebi que essa imagem da insegurança e do perigoso é construída de uma forma muito distante da realidade, normalmente através da mídia que só relata o desespero. Ou seja só quem não vive aquela realidade é que acha que ela é perigosa, é a imagem da realidade vista através da tela quadrada.

A moça me disse que o país não é uma guerra, que tem alguns locais e casos isolados de violência, que o povo de Israel mesmo nem sabia desta imagem que a gente tinha de lá, da mesma forma que eu não sabia que eles tinham a mesma imagem do Rio de Janeiro!

A mídia não “é má”, mas quando ela relata alguns casos de acidentes com bicicleta, quem está apenas olhando, imagina que quem anda de bicicleta no trânsito é um aventureiro-louco-suicida-que-não-merece-mesmo-viver. Mas pensa isso, porque não está ali vivendo a realidade, está vendo uma parte muito muito muito muito pequena dela, só que – como não vê outra – passa a crer que TODA aquela realidade se resume a isso.

Se fosse só a imagem já não seria muito bom, mas sabe qual é a principal rebordosa disso? A atitude das pessoas que acham que viram um programa de televisão e já sabem tudo sobre “os perigos de andar de bicicleta no trânsito”. Começam a andar na rua abordando os ciclistas, falando:

  • “sai daí maluco, quer morrer? vai prá ciclovia! aqui não é lugar de bicicleta!”
  • tem os responsáveis: “você é um irresponsável, andando ‘no meio’ da rua, quer causar um acidente?”
  • tem os bonzinhos: “camarada, você é um cara maneiro, sai daí, vão acabar te atropelando!”
  • tem os preocupados: “meu amigo, pára com isso, você vai acabar se machucando esse trânsito é muito louco”
  • tem os irônicos: “se passar na minha frente me atrapalhando eu passo por cima”
  • tem os legalistas: “cara, vai ler o código de trânsito, lugar de bicicleta é na calçada” (não é piada, aconteceu comigo…)
  • tem de tudo, vocês nem imaginam!

Mas sabem quantos recebem estas “informações” e pensam “nossa, eu tenho mesmo que mudar de atitude enquanto motorista, tenho que passar a respeitar os outros, principalmente ciclistas, coitados!”?
Nem eu sei! Porque eu NUNCA vi esta atitude! Nem conheço quem tenha visto, nem vi de  amigos que andam de bicicleta e dirigem; ando com eles em seus carros e os vejo falando as frases lá de cima, nunca essa daqui.

Então posso lhes garantir – baseado em percepção, experiência, estudos e pesquisas – que a segurança de todos no trânsito não está no medo e na segregação (porque isso só favorece quem tem interesses escusos), tem que partir para a mudança de comportamento.

Não sabe como começar? Ocupe as ruas, jogue o medo infundado fora, aja, mostre que as nossas ruas não são só das pessoas que estão dentro dos carros!

Os gráficos e muitos dados foram cedidos pela TRANSPORTE ATIVO.

Até o próximo…

Clique aqui para acessar o link original.

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