Ocupações culturais em São Paulo, Brasil

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Repostado do site do Transnational Dialogues

Em meados de fevereiro coletivos de artistas ocupou para finalidades artísticas uma casa pertencente à União, tombada pelo Patrimônio Histórico, na região da Consolação, em São Paulo. Desde então várias atividades culturais, debates vem acontecendo na Casa Amarela, como ela ficou chamada. Arte-educadora Malu Andrade conversei com Dorberto Carvalho, um dos idealizadores do movimento para saber mais sobre o movimento, o que pretendem e como ele vê a integração com os outros movimentos que também pensam a cidade artisticamente.

In February 2014, a group of artists occupied for artistic proposes an abandoned house belonging to the Federal Government at Consolação in downtown São Paulo. Since the beginning of the occupation several artistic activities and seminars have been taking place at the house, now called Casa Amarela (the Yellow House). Art educator Malu Andrade has interviewed Dorberto Carvalho, one of the leaders of the occupation movement, on how he sees Casa Amarela in the context of other cultural and civil movements that are now taking place in the city. (English version now available)

Malu Andrade: Você pode explicar em linhas gerais o que é o Movimento de Ocupação de Espaços Públicos? Os Ateliês Compartilhados. Quem participa? Quando surgiu?
Dorberto Carvalho: 
Este movimento surgiu a 3 anos atrás. Surgiu à partir da Cooperativa Paulista de Teatro e de coletivos de teatros. Em cima da experiência de coletivos surgidos com o Fomento, que já ocupam espaços na periferia da cidade para suas produções. Estes coletivos já tem uma filosofia, um conteúdo ideológico de como relacionar seu conteúdo artístico com a cidade. A partir desta concepção surgiu o movimento. A gente começou a levantar outras experiências como por exemplo Alemanha Oriental, Londres e Paris. O Ateliê Compartilhado vem muito desta experiência destes grupos europeus e também destas ocupações destes grupos de teatros na periferia que passaram a compartilhar outras linguagens, na verdade isto é muito mais rico do que uma ocupação apenas de coletivos de teatro. Nestes anos a gente vem nesta discussão do que seriam estes Ateliês Compartilhados e agora foi chegando o pessoal de música, de dança, de cinema, artes visuais. Quando a gente ocupou aqui, há 15 dias, também outros coletivos foram se juntando, como o pessoal do Parque Augusta ou do Buraco da Minhoca.

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Então existe então um diálogo com outros coletivos que estão pensando a cidade como Parque Augusta, Movimento Baixo Centro?
Tem um diálogo com este pessoal todo e com coletivos anteriores que estão mais na periferia. O foco está no centro, a visibilidade aqui é maior. A gente tem uma visibilidade na imprensa que por exemplo um coletivo da periferia não tem, e também porque este quadrilátero que pega a consolação até a Augusta está no centro da especulação imobiliária. Centro do interesse econômico e centro de um corredor cultural, que pega do Belas Artes até a Roosevelt. Estas lutas deste corredor tem algo em comum, principalmente dos coletivos da praça Roosevelt, que resinificaram este espaço e vem sendo encurralados pela alta dos preços. A ocupação da Casa Amarela fica no meio deste angu todo, desta luta política, artística e cultural.

No site de vocês citam o caso da Luz, o governo criou vários aparelhos culturais na região, mas trata-se de uma política extremamente higienista porque não dialoga com o entorno com a cidade. Como você acha que estes coletivos, desde a Roosevelt, passando por vocês, Parque Augusta, Baixo Centro, podem ajudar a não acontecer a mesma coisa do que aconteceu na região e como isto interfere na especulação imobiliária? Por que é uma faca de dois gumes, os artistas ocupam “revitalizam” o lugar e a especulação cresce os olhos. Como fazer esta resistência?
Eu acho que esta ocupação da Casa Amarela se dá num patamar mais avançado da luta política, não porque somos melhores, mas porque estamos surgindo em cima do acumulo da luta dos que já fizeram atrás de nós, então por conta desta luta eu acho que nós temos a possibilidade de colocar a discussão em outro patamar. Quando colocamos esta questão do que eles chamam de “revitalização” do espaço, da cidade – não só no Brasil mas no mundo inteiro –  constatamos que o poder publico não anda conseguindo dar respostas concretas para os problemas da cidade, então uma gestão compartilhada, uma auto gestão, uma gestão de artistas, pode colocar o debate de ocupação de espaços públicos com projetos artísticos, de devolver estes espaços para a cidade, em outro patamar, que não é no patamar institucional. Este debate não é novo, o que queremos fazer é recolocar esta discussão. Só para usar uma expressão do prefeito Haddad “ a cidade que queremos”, a cidade que queremos é uma cidade de portas abertas, de diálogo com a cidade, ocupação de espaços ociosos, inúmeros; nós temos muitos lugares mapeados.

Você comentou da via institucional, vocês dialogaram com prefeitura para esta ação? Existe um acordo com a prefeitura no sentido de permitirem esta ocupação?
Não existe acordo com a prefeitura, existe uma conversa. Um espaço isolado, sem articulação política, só nós aqui, ou só o parque Augusta, ou só outro sozinho,  não vai ter voz na cidade. Para ter uma voz contundente tem de ter uma ação articulada, mesmo entendendo as variantes ideológicas de um movimento para outro, no fundo estamos lutando pela mesma coisa: uma cidade aberta, que contemple todos os seus cidadãos. Só a Casa Amarela não vai resistir, embora eu diga que mais do que uma articulação política forte, o apoio da população da rua é o mais importante. A população tem nos dado apoio, liberaram wi-fi, nós projetamos filmes nos prédios, a gente tem diálogo com este entorno. Nós não somos inimigos da prefeitura, somos parceiros da prefeitura, muitos votaram no Haddad, acreditam que esta gestão seja muito mais favorável à cultura, e temos dialogado sim, dialogamos com a ministra Marta Suplicy em Brasília, falamos da pretensão desta casa em junho do ano passado. Protocolamos um pedido de concessão de espaço.

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E vocês obtiveram esta concessão ou foi na base da ocupação mesmo?
Não tivemos, tivemos 2 respostas do ministério da Previdência Social, dizendo que não poderiam ceder a casa sem ônus, nós não entendemos o que seja sem ônus, se ele quer vender uma casa de 10 milhões para um movimento de artistas, ou mesmo pedir um aluguel que gira em torno de uns 40 mil…então a gente ocupou, mas não segue a lógica da ocupação de moradia, embora nós dialoguemos muito bem com este movimento. Eu mesmo participei da primeira ocupação da cidade de São Paulo do regime militar, em 1983, eu venho do movimento de moradia. Várias pessoas daqui são artistas ligados ao movimento. Nós só temos proximidades com eles, mas é diferente, é artística, tem como objetivo cumprir outras necessidades da cidade.

No Brasil é algo que você não vê mesmo, ocupações culturais. Vocês são os primeiros? Você tem conhecimento disto?
A gente não tem a pretensão do pioneirismo, mas nestas dimensões e neste lugar, o coração da especulação imobiliária, é única. Nós queremos abrir o debate para que ocupem outros espaços. Nossa sobrevivência está ligada à ocupação de outros espaços.

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Na parte prática da ocupação, quem quiser pode chegar? Pode propor atividades para a Casa?
É livre, as únicas exigências são acesso livre à qualquer público e ser gratuita, eventualmente o pessoal passa o chapéu para manutenção do espaço.

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